Há uma enorme indignação porque o Censos quer saber como é a população do país perguntando a que raça pertence. Os argumentos contra vão desde que isto só serve para rotular as pessoas, passando por ser lamentável agrupá-las ou por "a raça é uma construção social que não é real"(?)...
Vejamos, para que servem os Censos, de acordo com o INE:
"Os Censos permitem conhecer melhor o país e a sua população; a informação recolhida dá-nos a saber quantos somos, como somos e como vivemos."
Ora, se não podemos fazer perguntas que nos "rotulem" e nos coloquem "em grupos", fazemos censos para quê?
Nos censos costuma perguntar-se a religião das pessoas, essa sim uma escolha cultural de cada um e não uma raça. Também devemos deixar de perguntar isso? E a idade? A idade não nos coloca também num grupo? E o sexo? Também não é uma construção social que devemos evitar? Para que servem os censos afinal se não para perceber que tipo de cidadão mora num determinado país. Se não podemos fazer perguntas que nos "rotulem" e que questionem "construções sociais", é melhor parar com os censos e não sabermos nada sobre quem vive no país.
Não há problema nenhum em termos raças diferentes, um país só enriquece com isso... a não ser quando as pessoas começam a ver problemas em termos raças diferentes (essas sim, as verdadeiras racistas)- aí surgem os problemas e as divisões porque deixamos de aceitar a diferença e tentamos forçar todos a serem iguais. Aceitar os outros como humanos com os meus direitos e iguais na sua humanidade, não nos impede de perceber as diferenças individuais, sejam de raça, sexo, cor de olhos, de cabelo, etc, coisas que também podiam ser perguntadas nos censos para uma melhor formação do quadro que forma Portugal.
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segunda-feira, 25 de março de 2019
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
A desistência da Língua
Por Inês Pedrosa:
Numa das últimas vezes em que escrevi um artigo contra o chamado Acordo Ortográfico, um amigo aconselhou-me a abandonar o assunto porque, estando já prestes a entrar em vigor no Brasil, seria inútil contestá-lo. Acrescentou que a não-adesão criaria problemas económicos a Portugal.
Este modelo argumentativo diz muito sobre o tempo em que vivemos: os espertos são os que seguem o rebanho e desistem de pensar pela própria cabeça, para não levantar ondas. Em caso de resistência, apela-se ao incontestável Deus da Economia, que suspende qualquer explicação.
Sucede que aquilo a que se convencionou chamar Acordo Ortográfico é uma fraude, porque:
a) Não estabelece nenhum acordo (a palavra recepção continuará a escrever-se com 'p' no Brasil e perde o 'p' em Portugal, porque o fundamento da ortografia passa a ser a pronúncia - e ainda por cima o texto refere a “pronúncia culta”, o que agrava o patético do tema);
b) Confunde os utilizadores, dado que a etimologia das palavras, que esclarecia as dúvidas, deixa de se aplicar. Sintoma de uma época que despreza a memória e vive em esquecimento acelerado, este 'acordo' ignora voluntariamente a história e o trajecto da Língua. É mais um passo no caminho do desprezo pela riqueza e pela força da Língua Portuguesa.
Em L'identité malhereuse, o ensaísta francês Alain Finkielkraut reflecte, entre outras coisas, sobre a justificação da ministra do Ensino Superior francês para criar, em 2013, cursos em inglês.
Dizia ela: “Se não autorizarmos cursos em inglês, não atrairemos estudantes dos países emergentes, como a Coreia do Sul ou a Índia”.
Conclui Finkielkraut: “Reina portanto o funcionalismo, que conduz à uniformidade. Assim que o verbo esteja reduzido a veículo, a meio de informação e de comunicação, toda a gente virá buscar o mais confortável (…). Para o novo regime semântico, a forma não conta para nada, só o sentido faz sentido” (tradução minha, porque infelizmente Portugal traduz cada vez menos livros de ensaio, e menos ainda de pensadores contra-corrente, como é o caso deste).
O fascínio supostamente economicista pela língua inglesa está também em franco crescimento nas universidades portuguesas, que julgam ser esse o caminho da internacionalização, do cosmopolitismo, do dinheiro e da glória.
Basta olhar para o desaparecimento veloz da língua e da cultura francesas em Portugal para perceber o resultado desastroso dessa cedência à Língua Imperial (o inglês).
A anulação de uma língua representa a desistência da cultura que ela veicula - não só o apagamento exterior da sua literatura (o que já não é pouco, porque a língua portuguesa sempre se distinguiu pela sua produção literária), como do cinema, do teatro e da música.
Em vez de cuidar do reforço do ensino da Língua no mundo, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem passado as últimas décadas entretida com um acordo impossível.
Devia olhar para os ingleses e americanos, ou para os espanhóis e para a América hispânica, e meditar sobre como conseguiram eles que as suas duas línguas dominassem o mundo. Não foi com protocolos burocráticos sobre minhoquices ortográficas. Dedicaram-se, pelo contrário, a investir no que interessa e rende: a universalização da Língua.
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